“Jornalismo de games não é só jogar”. Confira a entrevista com Fernando Souza Filho

De jornalista musical à jornalista de games. De fanzineiro de um jornal chamado Metal Guardian até o cargo de editor-chefe da maior revista de games do país. Este é Fernando Souza Filho, formado em publicidade e propaganda foi explorar cedo a área de jornalismo. Em pouco tempo tornou-se muito reconhecido por seu trabalho na revista Rock Brigade, ficando por lá entre os anos 90 até 2008.

Depois disso foi para a PC magazine, portal EGW, MSN Tecnologia e por aí vai. Atualmente é editor da Nintendo World e também da EGW, revistas da Tambor Digital. Se você não conhece a trajetória deste jornalista de sucesso, a hora é agora.

GameReporter: Ouvimos dizer que você teve nada menos que quatro bandas. Como eram estas bandas? Elas ainda existem?

Fernando Souza Filho: Na verdade, foram três bandas, que tive entre 1985 e 1994. Três delas era uma mistura de thrash metal com punk/hardcore, enquanto uma era de heavy metal clássico, com uma levada na linha do que é conhecido como NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal). Sempre curti muito metal, thrash, punk e hardcore. Cresci ouvindo isso.

No começo foi difícil fazer jornalismo tendo formação publicitária? E porque você  não se tornou um publicitário já que tinha o conhecimento técnico?

Foi um lance casual mesmo. Eu me formei em Propaganda & Publicidade na Universidade Federal de Belém do Pará e vim fazer Pós-Graduação na ESPM de São Paulo, em 1989. Mas logo fui parar na revista Rock Brigade como estagiário (1990), desisti da Pós em publicidade e investi fundo no jornalismo.

Na verdade, nunca trabalhei de fato com publicidade e foi muito difícil o início na área de jornalismo. Mas a primeira coisa que aprendi foi que o segredo do jornalismo não é escrever muito, e sim ler muito. E como sempre fui um leitor ávido de livros, jornais e revistas, me adaptei rápido. Em 1992, assumi o cargo de redator-chefe da Rock Brigade, transformei-me em editor-chefe “que também fazia arte” e lá fiquei até 2008.

Toda a sua carreira profissional é associada ao rock, afinal você foi editor da revista e do site Rock Brigade, já foi correspondente musical aqui no Brasil para veículos do Japão, escreveu a biografia dos Ratos de Porão e possui uma vasta coleção de CDs. Foi estranha a passagem do jornalismo musical para o jornalismo de tecnologia e depois para os games no começo?

Não, porque sempre fui fanático por tecnologia e por games. Fui autodidata quando aprendi a usar Macintosh em 1994, a usar o Photoshop e o PageMaker em 1995. Depois, migrei pro InDesign. Em 1997, decidi aprender a construir sites e também aprendi sozinho, primeiro HTML e anos depois PHP. Hoje prefiro um CMS como o Joomla. Tenho mais de 20 sites ativos feitos em Joomla.

Ou seja, minha paixão por tecnologia é antiga. Mas a paixão por games é ainda mais antiga. Comecei com o Atari 2600 nos idos de 1981 e nunca mais parei. Tive a fase PSOne nos anos 1990, a fase de jogos para PC nos anos 2000 e hoje em dia já estou no meu segundo X360, que não troco por nada neste mundo.

Qual foi a situação mais curiosa que você presenciou na sua carreira de jornalista?

Situação curiosa daria um livro de 900 páginas se eu conseguisse escrever um. Mas as mais curiosas foram fora do Brasil. Em 1994, fui cobrir um show do Biohazard na Sunset Strip, em Los Angeles. O pau quebrou e todo mundo brigou. Eu corri pro banheiro quando a polícia invadiu o lugar. E lá encontrei um cara encolhido num canto, com um segurança na frente dele, protegendo-o. Era o Eric Singer, baterista do Kiss. Não agüentei e caí na gargalhada.

Outra maluquice curiosa aconteceu em 1997, quando fui cobrir o Carlsberg Festival, em Londres, cinco dias antes da morte da Princesa Diana. Eu não bebo álcool, mas como o patrocínio era da Carlsberg, não havia refrigerante pra imprensa. Só cerveja. Quente. Sim, quente, esquentada, pois britânico gosta assim. Tive que tomar e vomitei na sala de imprensa. Mico federal.

Outro mico federal aconteceu na Argentina, em 1998. Fui cobrir um festival na cidade de San Pedro e na hora que fui fotografar a banda, um louco agitado me deu uma cotovelada (sem querer) na boca. Saiu tanto sangue que fui levado semi-desmaiado para o hospital da cidade. O médico me dava instruções em espanhol-caipira. Não entendi nada. Eu tava totalmente zonzo, tinha perdido sangue. Tomei três pontos na boca e fiquei o resto da viagem tomando só suco e sopa. Churrasco argentino? Só sentia o cheiro.

Você trabalhou ativamente nos dois tipos de mídia (impresso e internet), inclusive enfrentou problemas com a diretoria da Rock Brigade por causa da velha briga “impresso x internet”. Então, após tanto tempo no mercado, você acha que a internet prejudica as vendas de uma revista impressa?

Tem que saber fazer as duas mídias “conversarem”, não adianta “brigarem” uma com a outra. O jornalismo online é mais imediatista, mais informação, multimídia. O jornalismo impresso é mais analítico, para ser lido e analisado com calma. Você pode ter os dois trabalhando juntos em uma revista, por exemplo. Meu primeiro projeto nesse sentido foi em 2003, mas a diretoria da Rock Brigade achava absurdo colocar o conteúdo da revista na web. Hoje em dia, não dá sequer para se discutir isso. É óbvio demais.

Em sua opinião, porque a indústria da música teve um declínio mercadológico tão evidente e o mercado de games permaneceu em alta durante tantos anos?

Por um fato muito simples: a indústria musical é burra e conservadora. Simples assim. Quando a Justiça fechou o Napster em 2001, a indústria da música deu o maior tiro no pé da história e decretou seu fim nos moldes como estava havia 50 anos. A indústria da música usou a Justiça, processos e até prisão para tentar deter o MP3, os downloads e as cópias de discos. Eu escrevi exatamente isso em um artigo de julho de 2001. O resultado está aí pra todo mundo ver.

A indústria dos games aprendeu com os erros e está tentando um caminho diferente: oferecer um algo mais que o pirata não oferece. São o caso dos DLCs, troféus, fases extras, mapas extras e personagens extras para quem compra o original e se registra via web. E ainda tem a rede Live, PSN etc. Isso sim é uma guerra inteligente.

Já que você  ficou anos trabalhando com música e depois foi para tecnologia e em seguida games, dá para dizer que seu negócio é jornalismo prático não importa para qual área será voltada?

Eu não conseguiria responder tão perfeitamente como a sua própria pergunta (risos). Gosto do jornalismo prático, de nicho de mercado. Jamais conseguiria trabalhar com política ou economia, por exemplo.

Antes de editar os sites e revistas da Tambor Digital, você já jogava videogames? Se sim, como foi apresentado aos consoles e aos jogos eletrônicos?

Eu jogo desde 1982, quando ganhei meu primeiro Atari 2600. Passei por todas as fases da cronologia dos games, ainda que a que foi mais intensa talvez tenha sido a do PSOne, nos idos de 1997 a 2000. Hoje prefiro jogar no Xbox 360. Jogo em todas as minhas horas de folga, praticamente todos os dias.

Em relação aos leitores das revistas Nintendo World e da EGW, como tem sido o feedback deles? Muitas reclamações, muitos elogios?

Varia por edição. Em geral, o leitor se posiciona em relação à edição, na revista em geral. Então, varia bastante a cada mês. Algumas edições bateram recordes de mensagens elogiosas, como as EGWs do Red Dead Redemption (2010) e recentemente a do L. A. Noire (2011).

As revistas da Tambor sempre passaram por constantes mudanças ao longo dos anos, várias pessoas já trabalharam por aí, várias sessões se criaram e acabaram na revista e por aí vai. Há novas mudanças planejadas para as publicações da Tambor?

Sim. Os novos projetos visam principalmente essa “conversa” interativa maior entre o online e o impresso. Mas infelizmente ainda não posso adiantar muita coisa.

Cada editor da EGM/EGW são reconhecidos por deixar alguma marca na revista. Daqui alguns anos qual vai ser a marca que os leitores vão associar ao seu tempo de editor?

Variedade. Desde que assumi o cargo, procuro dar uma outra abordagem para os artigos, algo que mostre variedade. Por exemplo: criei o projeto de um curso de introdução ao design de games dentro da revista, feito por um especialista. O feedback foi fenomenal.

Qual o diferencial que se busca na hora de contratar redatores e freelancers para as redações voltadas aos videogames?

Conhecer o tema e ler muito sobre tudo. É a primeira coisa que pergunto quando entrevisto um candidato: “Você está lendo algum livro atualmente?” Não tem segredo, se o cara lê bastante (livro, revista, jornal), vai escrever bem. Não adianta escrever 200 notas por dia no blog e ler pouco. Vai ter tanto erro de concordância e falta de clareza que nem dará para ler.

Pra finalizar. O que os jovens devem saber antes de se meter com jornalismo musical e com o jornalismo de games no Brasil?

Primeiro, que a vida na área não é fácil. Jornalismo de música não é só ouvir música e jornalismo de games não é só jogar. Na verdade, o que a gente menos faz é ouvir música e jogar nas redações. É 90% de transpiração e 10% de inspiração. Obviamente, é muito melhor estar escrevendo sobre games do que ser caixa de banco. Questão de vocação. Sou editor de revistas há 21 anos, não consigo me imaginar fazendo qualquer outra coisa.

Ping Pong

Internet ou Impresso?

Os dois, literalmente. Leio notícias, escrevo, faço tudo na internet todos os dias. Mas leio um livro por semana, é sagrado. E leio revistas sobre games, tecnologia e ciência em geral. Então, eu realmente divido meu tempo entre os dois. Não é demagogia.

Um ídolo?

Na música, Ronnie James Dio, o maior cantor da história do rock’n’roll de todos os tempos. No esporte, Telê Santana, o maior treinador da história do Brasil. No humor, Henfil. No cinema, Rainer Werner Fassbinder. Nos games, Hideo Kojima.

Um CD?

“Pleasant Dreams”, do Ramones. O disco que quero que seja tocado em meu funeral.

Uma música?

“The Number of the Beast”, do Iron Maiden. A música que quero que seja tocada em meu funeral após o disco do Ramones.

Um filme?

“Boleiros”

Um game?

Nos anos 1990, “Tomb Raider II”, que eu zerei 3 vezes: 2 vezes no Macintosh e 1 vez no PSOne. Hoje em dia, “Red Dead Redemption”, que considero o melhor game de todos os tempos.

Um sonho?

Conhecer os Países Nórdicos.

Um recado:

Jamais desista de nada, nunca!

3 opiniões sobre ““Jornalismo de games não é só jogar”. Confira a entrevista com Fernando Souza Filho”

  1. Muitas saudades do tempo da Brigade nos anos 90,o que mais me marcou foram as resenhas do discos feitas por fernando souza filho, ele escrevia muito bem agora está explicado ele lia livros.

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