E.T

Os piores Jogos do Mundo #03: E.T. the Extra-Terrestrial, o game que enterrou o Atari 2600

Quando se fala de jogos ruins, nenhum é mais emblemático do que E.T. the Extra-Terrestrial, do Atari 2600. A rejeição pelo título foi tão grande que ele se tornou símbolo do crash dos videogames e em como a indústria pode ser frágil se ela servir apenas interesses de empresários, ignorando os anseios dos consumidores. Hoje vamos falar daquele que é eleito por muitos como “o pior jogo” da história”.

Steven Spielberg já era um diretor de sucesso antes de criar E.T., já tendo dirigido os megassucessos Tubarão e Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida. Não foi uma grande novidade quando Steve Ross, CEO da Warner Communications da época (empresa detentora da Atari), mediou um acordo com Spielberg e com a Universal para produzir um game baseado no filme. As expectativas eram as mais altas, pois o filme fez um caminhão de dinheiro, batendo todos os recordes de bilheteria da época.

Um projeto envolto em problemas

As coisas já não começaram bem para o projeto. É sabido que Ray Kassar, CEO da Atari considerava estúpida a ideia de fazer um game de ação inspirada num filme. Todavia, o projeto manteve-se de pé, afinal o acordo com a Universal custou cerca de US$ 20 milhões dos cofres da Atari e restituir essa grana era uma prioridade. Coube a Howard Scott Warshaw a tarefa de programar o game. O problema é que Warshaw pôde contar somente com o auxílio de um assistente e a Atari estipulou um prazo de entrega do game de apenas cinco semanas para poder aproveitar o período de fim de ano, um prazo extremamente curto. Como comparação, Raiders of the Lost Ark, outro game criado por Warshaw, teve sete meses de desenvolvimento.

Com o prazo curto, Warshaw teve de criar algo simples, cortando diversas ideias que chegavam a todo momento. Os executivos da Atari queriam fazer algo ao estilo de Pac-Man, mas Warshaw queria fazer algo mais original, mais próximo da emoção transmitida no filme. Entretanto, ele mesmo viu que o prazo inviabilizaria fazer algo mais complexo. Assim, o designer decidiu por fazer um game em que o jogador controla o E.T. e o objetivo é encontrar três peças que formam um telefone interplanetário para fugir da Terra.

Scot Warshaw

A jogabilidade por si só é bem simples, basta coletar alguns artefatos em seis cenários simples, desviando de buracos. Alguns desses buracos, aliás, podiam esconder itens que ajudariam o jogador. Coletar os objetos era uma tarefa simples, de modo que a única preocupação do jogador era com o tempo se esgotando e com a energia que se esgotava a ada movimento. A energia poderia ser restabelecida ao coletar as “Reese’s Pieces”. Ao coletar tudo, o jogador pode ir para a aeronave e ir para casa. Inimigos mesmo eram representados por agentes do FBI e por cientistas.

Warshaw conseguiu lançar o projeto no tempo estabelecido e a Atari apostou que as vendas do jogo seriam enormes e acabou por enviar para as lojas cerca de cinco milhões de unidades. Infelizmente para os executivos, E.T. se mostrou um fiasco, devido à péssima qualidade do produto. As conversas nos corredores das escolas era que o game era terrível e logo os jovens o evitaram mais do que tomar vacina. Ao final da época de Natal, a Atari teve de receber de volta cerca de 3,5 milhões do cartucho que ficaram estocados nas lojas. O desespero chegou a tal ponto que lojistas chegaram a vender o produto por preços risíveis e ainda assim não conseguiam se livrar dos estoques. A vergonha foi tanta que a Atari pegou essas cópias não vendidas e resolveu escondê-las em um aterro no Novo México, diziam as lendas.

Por que deu errado

A verdade deve ser dita: E.T. não é nem de longe o pior game já criado. Ele é realmente entediante e pouco desafiador, porém mesmo no Atari haviam produtos piores. Os motivos que o tornam elegível ao posto de um dos piores games do mundo é o legado que ele deixou: destruiu a reputação da Atari e acabou com os planos milionários da companhia.

Outro motivo de aponta-lo como um lixo imundo, é que a dificuldade chegava a ser injusta com os jogadores. São muitos buracos em determinados cenários e o tempo de conclusão é tão baixo que torna a tarefa de encontrar as peças do telefone quase impossível. Ao cair em um buraco, é realmente difícil sair dele, pois o jogador deve pressionar o botão vermelho enquanto segura o controle, porém o personagem deve estar em uma ponto muito específico do cenário. Chega a ser frustrante. Agora imagine que se um mísero pixel do E.T toar o buraco ou algum homem tocar a criatura, ele cai no buraco. Sim, você vai cair muitas vezes, tornando a jogatina bastante repetitiva.

Os visuais também são bem pobres. Mesmo no Atari já haviam games com cenários mais bem desenvolvidos, tais como Solaris, Pivate Eye e Robot Tank. A impressão que se tem é que Warshaw estava sem criatividade no momento de desenhar os cenários. Mas tudo se justifica pelo curto prazo que o designer teve para criar tudo do zero. Além dos cenários, a música também é bastante enjoativa e conta com um tune desagradável. Claro, conforme já dissemos, haviam games muito piores do que E.T., e, se serve como redenção, é um dos poucos que não sofrem com bugs que o tornem injogável. Mas ainda assim, o game é bem enjoativo e deve ser evitado.

O legado de um jogo ruim

Talvez toda a fama do game se deve a lenda urbana dos cartuchos enterrados e ao fato de que em apenas poucos meses após seu lançamento, a indústria de jogos eletrônicos enfrentou um revés incrível, fazendo com que a Atari acumulasse dívidas e fosse motivo de desconfiança de toda a comunidade. Em uma matéria para o New York Magazine, o jornalista Nicholas Pileggi disse que o game era uma completa derrota criativa.

Anos depois, já em 2014, realizou-se uma escavação no Novo México para descobrir se a lenda dos cartuchos enterrados era real. Bingo! Milhares de cartuchos estavam mesmo enterrados, junto de pilhas de material de marketing e outros jogos malsucedidos do Atari 2600. Em uma lista da GamePro, E.T. foi listado como um dos 52 jogos mais importantes de todos os tempos devido ao seu papel no crash dos videogames e na derrocada da Atari. Foi o único título a entrar na lista por um motivo negativo.

Abaixo tem o comercial de E.T. the Extra-Terrestrial:


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Uma opinião sobre “Os piores Jogos do Mundo #03: E.T. the Extra-Terrestrial, o game que enterrou o Atari 2600”

  1. Devo ter sido um dos poucos que gostou deste jogo, ele lembrava o Super-Homem e conseguiu captar o espírito do filme, o ET podia ressuscitar as flores, tinha que fugir dos inimigos e precisava juntar objetos para montar a antena pela qual chamaria sua nave. O Elliot o ajudava e realmente os buracos eram a parte negativa, mas depois que se pegava o macete de flutuar (também tinha a ver com o filme) era mais fácil. Considero injusta a pecha de pior jogo, mesmo tendo sido lançado em um momento difícil para a Atari e o lance das fitas enterradas nunca ficou provado, fizeram lá uma papagaiada e “desenterraram” algumas fitas, mas em quantidade muito inferior a que foi anunciada.
    E o autor tem outros jogos muito interessantes, realmente fazer um jogo com esta responsabilidade em pouco mais que um mês, contando com um único auxiliar foi um erro estratégico total… foram economizar e quebraram a Atari… quero dizer, a cara ;-)

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